Sábado a noite, voltando de uma noitada no bairro do Rio Vermelho em Salvador, as chances de você encontrar um taxista muito louco são de praticamente 99,9%. Era por volta de 1h da manhã. Chamei o táxi que estava passando. Um Uno. O motorista era branco, usava óculos, meio gordo. Tinha cara de pai de família, de bom sujeito. Entrei no banco da frente.
O Rio Vermelho é um bairro boêmio e cheio de bares. Assim que começamos a corrida passamos por alguns e daí que tudo começou.
- Eu, per-perder noite sentado em bar? Jamais. Perco no-noite trabalhando por que tenho necessidade. Odeio ficar em um am-ambiente assim. É pra-pra onde mesmo?
- Hehehehe (¬¬) Brotas.
Porra, o cara era gago. Falava de uma maneira muito engraçada, algumas palavras travavam pra sair e isso era muito engraçado, eu ia ter que segurar a gargalhada.
- Já perdi muitas noites, quando e-e-era mais novo. Mas agora não. Ficar sentado nesse barulho, ninguém pode conversar nada, bater um-um-um papo.
- Sei... (Segura, segura. Pensa na fome das crianças na África, na natureza, nas árvores...)
- Sentar em uma me-mesa de bar, ficar ouvindo música alta, axé... De-Deus me livre. Odeio axé. Música de gente i-i-i-ignorante.
- Hehehehehe, eu também não gosto muito de axé não.
- Porcaria rapaz... tudo lixo. A mú-mú-música hoje em dia, não va-vale nada.
- Rs. Algumas valem poh. (as crianças, a fome, as árvores, os passarinhos voando)
Por impulso ele apertou o botão e ligou o som do carro. Tava passando algo sobre futebol... um comentário ou alguma vinheta de um jogo. Não levou 3 segundos e ele desligou.
- O-o-odeio Futebol.
Eu pensei, mas não é possível uma coisa dessas. Qual seria a diversão desse sujeito? Caçar moscas com haxi? O cara odeia todo... Mas agora a conversa tinha ficado séria. Futebol...
- EU AMO FUTEBOL.
- Eu o-odeio. Não perco meu tempo ven-vendo jogo.
- Rapaz... nem copa do mundo?
- Pi-piorou em copa do mundo. Eu nunca fui apaixonado por fu-futebol, mas, tomei raiva mesmo quando descobri essa má-máfia toda. É melhor subir no Acupe ou no Extra?
- Que máfia rapaz? Sobe pelo Acupe mesmo.
- Esses jogadores ai, tu-tudo um bando de ignorantes, tudo ganhando milhões, bi-bilhões aí.
- Mas isso não é máfia não. Eu também acho meio exagerada essa supervalorização dos jogadores, mas...
- Você estuda, se fo-forma, rala pra caralho, pra ganhar mixaria. Enquanto esse Ro-ro-ronaldo mesmo ai, ganhando 500 mil. Pra não fazer nada rapaz... Fico indignado com i-i-isso.
- Hahaha. Fora a grana que ele ganha com publicidade. Que deve ser maior ainda.
- Ainda tem i-isso. Não sei como uma marca, chama esse Ro-Ronaldo pra fazer propaganda. Odeio essas propagandas tam-também.
- Porra... Eu faço isso.
- I-i-isso o que?
- A próxima direita o senhor pode entrar, é o primeiro prédio da rua.
- Trabalha fazendo pro-pro-propaganda é?
- É!
- Ah!
- É essa direita rapaz. Entra aí!
- Oopa!
Ele parou na porta do meu prédio. Senti que ele ficou meio desajeitado e sem graça.
- Foi quanto aí?
- Tê-treze reais. Mas é pro-propaganda com Ronaldo que tu faz, não?
- Não, não... hehehehe. Às vezes faço umas com a Ivete Sangalo.
- Ah!
- Da Ivete Sangalo você gosta né?
- Não! O-o-odeio.
Desci do carro com uma vontade enorme de perguntar a ele, o que ele não odiava. Mas preferi ficar imaginando ele feliz da vida caçando moscas com haxi.
