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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nêgo Véi e Roberto Carlos

Antes de contar a história de uma corrida, eu preciso fazer um flashback, voltar no tempo e contar como tudo começou.

Existe um ponto de táxi aqui próximo ao meu apartamento que eu sempre utilizo para pegar corridas. Uma certa época além de passar andando com muita freqüência pelo ponto, rodei bastante com os taxistas. Na maioria das vezes estava sempre com violão na mão. Logo passei a conhecer cada motorista de vista e principalmente um deles, Nêgo Véi (apelido que dei a ele). Nêgo é uma figura excêntrica, cabelo meio grisalho, barba meio branca também. Usa umas camisas florais de botão, abertas até a metade, um dente de ouro e sempre com um palito na boca.

Toda vez que passava pelo ponto ele sempre mexia comigo e falava algo tipo:

- E ai tocador, vai tocar aonde hoje?

Ou

- Esse violeiro é retado, e esse show vai ser aonde?

Até um belo dia que ia passando pelo ponto a pé, com o violão na mão. Ele viu e puxou conversa:

- Violeiro... e ai. Cadê? Da uma palhinha ai a gente?

- Haha, é que eu to com um pouco de pressa...

- Toca umazinha, só uma...

De repente, me vi parado ali. Cercado de taxistas me olhando e esperando que eu tocasse algo. Quem toca violão sabe como essa situação é horrível. Eu não sabia o quer fazer, não me vinha nenhuma música na cabeça. Só pensava que merda que vou tocar pra esses caras? Los hermanos? Nação Zumbi? Pearl Jam? Nunca devem ter ouvido falar dessas bandas. Era desesperador, olhava para o violão, olhava para os taxistas, olhava para o violão, olhava para os taxistas. Até que ouvi algum deles falar.

- Roberto Carlos. Toca uma de Robarto Carlos, pronto...

- Roberto Carlos? (pausa) Ta. Sei uma. "♫ ♪ Você foi, o maior dos meus casos. ♪ ♫ De todos os abraços, ♪ o que eu nunca esqueci... ♫ "

Senhores, adianto a vocês que naquele momento eu assinava minha sentença. Nêgo véi ficou meu fã e achando que eu era o melhor Seresteiro de Brotas. A partir daquele dia, sempre que passava por ali, ele falava algo ou me chamava pra tocar.

Passado alguns dias do ocorrido, ia fazer um som com uns amigos, domingo, no imbuí. Tinha a necessidade de pegar taxi. Fui pegar no ponto e, quem era o primeiro da fila?

Nêgo Véi tem um gol do modelo antigo, não daqueles antigões não, o modelo mais antigo que o atual, deve ser ano 99 ou 2000 por ai. Só sei que quando ta frio da um trabalho danado pra ligar. Entrei no carro com o violão...

- E ai bichão...

- Oooh Tocador. É você... e esse show vai ser aonde?

- To indo lá pro imbuí, Silver Shopping sabe onde é? Por ali.

- Claro, vai fazer seresta hoje lá é?

- Não, não. Só tocar com uns amigos.

Acho que ele me pensa que eu sou um super músico, que eu toco pra caralho, praticamente um Yamandu Costa.

- Ta tocando em banda?

- Não. to não...

- Por que rapaz? Tem que tocar... banda da dinheiro.

- É... to trabalhando e aí ando sem tempo pra tocar em banda.

- Tem um menino que mora aí na sua rua que toca em banda.

- Hum, não conheço não. É banda de que?

- A banda dele é... é no rio vermelho que ele toca. Lá naquela região lá.

- (¬¬) Haaa, mais ele toca o que?

- Ele ganha é dinheiro viu. Com a banda dele. Vejo sempre ele passando aí com o violão e tal.

- Ham. Mas ele toca qual instrumento?

- A banda dele é boa que é retada.

- Hummm

Eu comecei a perceber que tinha que esfriar a conversa, se não, ia ser essa chatice o caminho todo, e pra chegar ao Imbuí ainda faltava muito.

- Se eu fosse você, eu ia tocar com Carlinhos Brown. Por que não vai?

-Ham? Co... é... como?( ¬¬)

- Carlinhos Brown taí rico. Nasceu pobre, hoje ta rico. Se fosse tu ia tocar com ele, o negão bota pra fuder véi.

- ham... Mas...

- Hahahaha. Com aquela badega de nariz dele. É... sacana, o negão taí cheio de dinheiro e cheio de mulher. Tu tem que se juntar com ele.

Ele falava sério mesmo, como se Carlinhos Brown fosse meu vizinho e um belo dia eu acordasse e batesse na porta dele – Carlinhos, eu vou tocar com você hoje viu.

- É... Vou ver ai, se falo com ele.

Nêgo Véi é completamente sem noção das coisas. E ele não parava de falar e nem mudava o disco. O assusto só era música e banda... daí a pouco, já entrando pela Av. Paralela ele ligou o som do carro. Começou a tocar uma seresta bem antiga, não fazia idéia de que porra era aquela.

- Sabe tocar essa?

- Essa ai? Rapaz...

- Essa é boa heim, pra dançar agarradinho com a nêga.

- hehehehe é...

- Sabe não?

- Essa ai, não conheço não.

Deixou a música rolar por ums 30 segundos e mudou a estação do rádio. Caiu em uma músca em inglês... que eu também nunca tinha ouvido na vida.

– Sabe tocar essa?

- Essa ai? (eu fiquei com vergonha de dizer que não sabia tocar e estragar a imagem que ele tinha de mim. Eu tinha que dizer que sabia alguma) Haaaaa, ESSA EU SEI. É boa essa.

- Essa sabe? Haaaa então você é retado mesmo. Essa é ingRês né?

- Hahahaha é...

- Pera ai, deixa eu ver se você sabe mais...

Tava engraçado, mas já tava ficando tenso, imaginando se seria esse jogo do "sabe essa música" o caminho todo. Mudou a estação e caiu em um pagade baiano, Parangolé, Black style... sei la. Algo parecido com isso.

- Sabe essa?

- (¬¬) Essa? Sei também. (haaa já tava de saco cheio dessas conversas, ia dizer que sabia todas agora)

- Rapaz, você é retado mesmo.

Essa brincadeira durou o final do trajeto todo... ele mudou de música mais umas 4 vezes até que já pertinho do meu destino ele mudou novamente e caiu em...

- ROBERTO CARLOS (ele falou em alto e bom som) essa você sabe.

- hahahahaha essa eu sei. (mentira era uma musica antiga que eu não sabia tocar)

- Roberto Carlos é o rei. Ele e Michael Jackson são os reis da música.

- Hehehe verdade. Olha pode encostar ali naquele orelhão. Vou ficar ali.

- Quando você passar no ponto vou pedir pra você tocar essa.

- hahahaha pode deixar.

Desse dia em diante, toda vez que saiu de casa com o violão agora, atravesso a rua e vou para o outro lado da calçada para não passar no ponto. Paguei a corrida, não me recordo o valor, e desci do táxi com uma lição de moral. Nunca pare em um ponto de taxistas e toque uma música de Roberto Carlos.